Redes Sociais

LG: Qual é o papel da Tecnologia da Informação na política de redes sociais das empresas?

Martha: A tecnologia da informação tem o papel de prover as melhores condições de uso da infraestrutura de hardware e integração de software para possibilitar acesso às redes sociais que interessam para o negócio da empresa, considerando a segurança da informação e o desempenho de uso. Sem uma boa estrutura que possibilite às pessoas utilizarem os recursos das redes sociais com segurança para a empresa, não se consegue um desempenho satisfatório dos colaboradores e corre-se diversos tipos de riscos que variam desde a contaminação da rede interna da empresa por vírus e códigos maliciosos até o vazamento de informações confidenciais.

Além disso, pensando em TI não apenas como as tecnologias, mas focando nos profissionais, as equipes de TI dentro das empresas, eles precisam ter uma compreensão das reais necessidades do público interno para conseguirem prover as melhores soluções tecnológicas. Acredito que essa integração entre a TI e o RH seja essencial para criar uma experiência produtiva e engajante para os colaboradores internos. Sabemos que não é uma tarefa simples criar colaborações entre áreas muito distintas, mas o cenário que se delineia hoje, tanto dentro quanto fora das empresas, é termos cada vez mais profissionais de TI focados também em fatores humanos, e profissionais de marketing, comunicação e RH se tornando mais geeks. Em outras palavras, apesar de cada profissional manter suas habilidades core específicas, o mercado demanda que ele também deem um passo em direção a outras habilidades que lhe permitam compreender e colaborar com áreas bastante distintas. É necessário ser “ponte” e deixar de ser “ilha”.

LG: No Brasil, pesquisas mostram que a restrição dessas redes é uma prática comum (55% das companhias restringem uso no trabalho, número acima da média mundial, que é de 20% – segundo pesquisa da consultoria de RH Manpower). A que se deve essa proibição e como isso pode afetar positivamente ou negativamente essas empresas?

Martha: A proibição do uso de redes sociais dentro das empresas acontece principalmente por dois fatores: a) preocupação com a produtividade – as empresas acreditam que o acesso liberado às redes sociais causa uma diminuição da produtividade das pessoas; b) preocupação com a segurança dos dados internos – tanto no que se refere a vazamento de informações internas confidenciais quanto à contaminação dos dados internos por vírus provenientes de links maliciosos clicados em redes sociais, como o Twitter.

Quanto à preocupação com a diminuição da produtividade, existem estudos que comprovam que em muitos casos essa preocupação é válida. O documentário “Digital Nation” (http://video.pbs.org/video/1402987791/chapter/1/) é um desses estudos interessantes. Se, por um lado, o acesso dos colaboradores às redes sociais pode abrir um monte de oportunidades para as empresas - como pesquisar o mercado e concorrência, atuar ativamente com ações de comunicação e presença digital -, por outro lado, é necessário conscientizar as pessoas sobre como usar as redes sociais no trabalho sem dispersar e sem misturar com assuntos pessoais. Existem várias pesquisas no exterior que tentam mensurar a perda de produtividade devido ao uso de redes sociais na empresa. O artigo “The Cost of Social Media to Worker Productivity: $2.25 Billion” (http://mashable.com/2009/10/26/social-media-productivity-cost/) traz referência para várias dessas pesquisas e argumenta que os estudos muitas vezes são tendenciosos, pois não levam em conta que, talvez, o tempo gasto hoje pelos colaboradores internos em redes sociais, era um tempo que eles já gastavam antes com outras atividades pessoais que faziam durante o trabalho e, portanto, estejam apenas substituindo atividades. Talvez os estudos precisassem ser realmente ajustados considerando essa possibilidade, para saber se há uma substituição ou não. Assim, um estudo mais acurado deveria levar em conta situações ao longo do tempo, a longo prazo, analisando custos de perda de produtividade ANTES e DEPOIS da adoção das redes sociais. Outro aspecto dessa questão: acredito que talvez o modo como o termo “produtividade” seja encarado hoje dentro das empresas tenha que ser revisto, pois ele herda uma associação forte entre o tempo que se está na empresa e o que se desenvolve lá. Com a penetração das redes sociais também na vida pessoal dos colaboradores da empresa, muitas pessoas têm trabalhado também nos seus horários pessoais “livres”, fora do expediente. Assim, as fronteiras entre as diversas ocupações do ser humano, estabelecidas na revolução industrial, estão se diluindo em uma revolução social. Novo paradigma, novas soluções.

Quanto à preocupação com segurança, apesar de existir uma forte pressão para que as empresas liberem o uso das redes sociais dentro das empresas, acredito que isso deva acontecer somente depois de se criar estruturas e políticas de segurança de uso das redes sociais e de se educar todos os colaboradores referente a isso. Existe uma confusão muito grande com relação ao termo ”transparência” no uso das redes sociais. Transparência significa usar as redes sociais de forma honesta e ética, mas não significa que a empresa deva compartilhar todos os seus dados com o mundo. Redes sociais são áreas públicas, como a rua. Se uma empresa não coloca os seus dados em outdoors na rua, da mesma forma não deverá colocá-los nas redes sociais públicas. Toda organização tem seus dados confidenciais e estratégicos e é necessário que os colaboradores saibam distinguir isso claramente. No estudo “Twitter ‘costs businesses £1.4bn‘” (http://news.bbc.co.uk/2/hi/business/8325865.stm), realizado pela consultoria Morse na Inglaterra, 84% dos funcionários entrevistados declararam que sentiam que a questão de publicar assuntos da empresa nas redes sociais dizia respeito apenas a eles próprios. Isso mostra a necessidade urgente de se educar o público-interno nesse novo cenário e estabelecer políticas claras para sua atuação nas redes sociais.

Acredito que uma vez estabelecida uma política de uso das redes sociais – tanto quanto à segurança de dados quanto ao seu uso responsável -, a educação dos colaboradores para atuarem nas mesmas e uma estrutura de TI adequada para garantir a produtividade dos colaboradores e a segurança da informação, as empresas passam a se beneficiar da liberação de acesso às redes sociais. No entanto, isso só deve acontecer depois de cumpridas essas etapas mencionadas.

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